A primeira vez que me senti parte da política como uma agente transformadora foi durante a coleta de assinaturas para o Partido Missão, do qual hoje sou fundadora de honra. Embora tenha permanecido por um breve período — aproximadamente cinco meses —, foi tempo suficiente para compreender, com clareza, a visão das pessoas sobre a atuação dos parlamentares, suas percepções históricas e, principalmente, as distorções acerca das funções dos cargos eletivos.
Não era raro me ver discutindo com alguém para tentar explicar que o senador que ela defendia com unhas e dentes não tem a função de ir até uma cidadezinha pacata do interior, onde detém seu curral eleitoral, para inaugurar uma praça ou “fiscalizar” a reforma de uma rua. Ainda assim, essa pessoa o apoiava exclusivamente por esses feitos.
Para que o patife foi eleito?
Antes de entrar em um tema denso e, de certa forma, desanimador, é crucial compreender o que são cargos eletivos e quais são suas funções. Os cargos eletivos são ocupados por cidadãos escolhidos pelo voto popular. São exemplos o Presidente da República, governadores, prefeitos, senadores e vereadores — todos eleitos diretamente.
No Brasil, os membros do Poder Judiciário não são eleitos. São nomeados ou concursados, como os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), indicados pelo Presidente da República, ou juízes de primeira instância, aprovados por concurso público.
Cada cargo possui funções típicas e atípicas. As funções típicas são aquelas exercidas regularmente; as atípicas surgem em situações excepcionais. O Presidente da República, por exemplo, tem como função típica chefiar o Estado, conduzir a política interna e externa, sancionar ou vetar projetos, representar o país, gerir recursos e nomear ou exonerar servidores, entre outras atribuições. Governadores e prefeitos exercem funções semelhantes, em âmbito estadual e municipal, respectivamente.
No Legislativo, as funções típicas são propor, discutir, emendar e votar leis, além de fiscalizar o Poder Executivo. De forma atípica, cabe ao Legislativo o julgamento político, como nos casos de impeachment. Há nuances entre as funções de senadores e deputados: em um eventual impeachment de ministro do STF, por exemplo, o papel decisório cabe ao Senado.
Entender a diferença entre os cargos é essencial para exercer corretamente o direito ao sufrágio. Cada estado elege três senadores, o que lhes confere um peso político enorme, já que a representação não é proporcional à população. É fundamental eleger senadores fortes. Agora, fica a pergunta: você sabe o nome dos três senadores do seu estado? E do maior estado do país, São Paulo? Sabemos que há um astronauta. E os outros dois? Eles estão sendo cobrados?
Ludibriados pelo teatro digital
Por que esse cenário é desanimador? Porque o Brasil é um país complexo, e seus problemas — assim como as soluções — também o são. Ao explicar as funções do Presidente da República, chega a ser cômico perceber que muitas pessoas acreditam que ele detém poder absoluto e que nada acontece se ele não quiser.
Os Poderes existem, ao menos na teoria, para garantir equilíbrio e evitar abusos. E a situação piora quando, mesmo após a explicação, o interlocutor insiste em estar certo, incapaz de controlar o próprio ego, chegando a afirmar, literalmente: “se ele não tem todo esse poder, deveria ter”, para depois endossar ditaduras.
Fica o questionamento: trata-se de amor cego ao político que ajudou a eleger ou de amor ao próprio ego, para não admitir que foi enganado por um picareta? Ou ambos?
Mencionei no início do texto a primeira vez em que me senti parte da política como agente transformadora. Houve também uma segunda experiência: trabalhar em uma campanha municipal em 2024. Não mencionarei o nome do candidato, pois desejo que ele caia no ostracismo pelo nível de covardia e canalhice demonstrado.
Minha função era simples: conversar com o público pelo WhatsApp — especialmente para agendar visitas — e estar presente em eventos. Ou seja, lidar diretamente com as pessoas. Mais uma vez, constatei que a noção sobre as funções e limites dos parlamentares era tão básica quanto o valor do salário mínimo.
O reflexo disso aparece nos parlamentares mais votados. Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, possui falas e discursos simplórios, mas foi eleito graças à engenhosidade política de José Dirceu. Nicolas Ferreira segue lógica semelhante, embora não seja intelectualmente limitado; pelo contrário, constrói deliberadamente uma imagem de simplicidade, pois sabe que a população não aprecia pensamentos complexos — algo já diagnosticado em A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset.
Erika Hilton ganhou notoriedade por falas e promessas sensacionalistas, como a PEC para acabar com a escala 6×1. Esses dois últimos figuram entre os dez parlamentares mais votados do estado. Vivemos em um país formado por sofistas — políticos performáticos que preferem o teatro à verdade — e por filodoxos, pessoas que se apegam à opinião alheia e abdicam do pensamento crítico.
A democracia nunca dura muito
Diante disso, surge a pergunta: as pessoas realmente têm capacidade de votar, se não compreendem as funções dos cargos que delegam? E de que adianta compreender, se são facilmente enganadas por discursos emotivos?
Na minha opinião, essas pessoas não possuem essa capacidade. Ainda assim, impedir o voto não parece ser a solução mais correta — salvo em casos específicos que, a meu ver, configuram compra de votos, como beneficiários de programas sociais, ou ludibriação total, como no caso de analfabetos.
O caminho adequado seria instruí-las, expor a picaretagem dos parlamentares e esclarecer as funções para as quais foram eleitos.
Aristóteles classificou três formas corretas de governo e três formas corrompidas. As corretas seriam a realeza, a aristocracia e a politeia, todas voltadas ao bem comum. As desviantes seriam a tirania, a oligarquia e a democracia, que visam ao interesse dos governantes.
A realeza é o governo de um em prol do povo; sua degeneração é a tirania. A aristocracia é o governo de poucos qualificados; sua degeneração é a oligarquia — modelo que o Brasil já experimentou na República Velha. A politeia é o governo de muitos para o bem comum; quando corrompida, transforma-se em democracia, na qual muitos governam em benefício próprio, guiados por emoções momentâneas.
A palavra democracia vem do grego demos (povo) e kratos (poder), significando “governo do povo”. Para Aristóteles, entretanto, era uma forma degenerada de governo. Durante séculos, o termo teve conotação pejorativa. John Adams já alertava: “a democracia nunca dura muito”.
A história confirma: regimes tirânicos são derrubados por democracias, que degeneram em oligarquias, que por sua vez recaem em tiranias, reiniciando o ciclo. No Brasil, tivemos a República da Espada, seguida pela República do Café com Leite e, posteriormente, a Era Vargas.
Uma república das leis, e não dos homens
E quanto aos parlamentares, o que pode ser feito? Como acabar com o teatro político? Os problemas brasileiros exigem soluções complexas. Falar em “mudar a cultura” é fácil; difícil é responder como fazê-lo.
Nossa política sempre foi marcada pelo teatro. O voto de cabresto, as promessas vazias e a manipulação persistem, agora em versões digitais. Frases como “vou dar picanha” ainda convencem multidões.
O sufrágio é universal, mas nem sempre livre e consciente. Há compra de votos direta e indireta, por dinheiro, favores ou benefícios sociais. A população, especialmente a mais carente, é ludibriada por discursos inflados e vídeos virais.
O caso do ex-prefeito Rodrigo Manga é emblemático: milhões de visualizações nas redes sociais, mas afastamento do cargo por escândalos envolvendo contratos, licitações e supostos vínculos com o PCC. Ainda assim, mantém apoio popular.
Voltamos à pergunta central: amor cego ao político ou incapacidade de admitir o próprio erro?
Os eleitores podem ser divididos em grupos: os que não têm discernimento, os que participam conscientemente do jogo de favores, os que não querem ser “isentões” e os que defendem ideias, não pessoas. Estes últimos, embora poucos, ainda mantêm viva a esperança de mudança.
Assim como nas Guerras Médicas, em que os gregos venceram os persas pela qualidade e não pela quantidade, acredito que a política também se vence assim. Somos menos, mas somos melhores.
Punir a população retirando o direito ao voto não é a solução. O problema está nos discursos, não nas pessoas. É aceitável que um parlamentar se promova nas redes dizendo cumprir funções que não lhe cabem? Pior ainda quando usa canais oficiais do Estado?
Ortega y Gasset não errou ao diagnosticar o homem-massa. Vivemos a era dos likes, não dos livros; das visualizações, não da investigação. O prestígio digital virou sinônimo de legitimidade política.
A cultura pode mudar pelo exemplo, mas exige ação dos bons parlamentares para coibir práticas nocivas. Os oligarcas sem caráter não jogarão contra o próprio jogo.
“Mentira a mentira
A verdade mente
Sob a escuridão
Comandos de mentira”
— Manu Chao



