A implosão do bolsonarismo é o fim que seus herdeiros merecem

A disputa feroz pelo espólio político de Jair Bolsonaro expõe um movimento em ruínas. Entre a histeria por protagonismo da família e a covardia de ex-aliados que tentam roubar a herança sem pagar o ônus, a ruína do bolsonarismo é o seu fim mais justo.

Na Antiguidade, quando Alexandre, o Grande, morreu de forma abrupta, ele deixou para trás o maior império que o mundo já havia visto. No entanto, sua obra não ruiu porque os persas contra-atacaram ou porque invasores bárbaros destruíram suas cidades. O império macedônico desmoronou de dentro para fora porque os generais de Alexandre decidiram se matar pelo trono vazio. O sangue derramado não foi o de inimigos externos, foi uma guerra fratricida e sangrenta conhecida como a Guerra dos Diádocos.

É impossível não reconhecer na direita brasileira de hoje uma reedição, tropical e contemporânea, da tragédia grega. Como supostamente disse Mark Twain (embora não haja comprovação de que isso foi de fato dito por ele), “a história não se repete, mas muitas vezes rima“.

O bolsonarismo, movimento que engoliu o seu espectro político na última década em torno de um único CPF, entrou oficialmente em sua fase Diádocos. Com Jair Bolsonaro doente, inelegível e politicamente neutralizado, o império da família não sofre de ameaças da esquerda; ele agoniza sob as facas de seus próprios herdeiros.

A guerra pública travada recentemente, protagonizada pelo bate-boca entre Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira, é o sintoma terminal de um movimento personalista. De um lado, a dinastia de sangue (o “bolsonarismo raiz”) tenta impor sua vontade pela herança genética. Do outro, os generais que construíram tropas e engajamento próprios (o “bolsonarismo soft”) tentam se descolar da família para herdar o capital político, mas sem a coleira de subserviência exigida pelo clã.

Nessa briga de espólio, não existem mocinhos nem vilões ideológicos. Ambos os lados vão se destruir, e analisando friamente a trajetória de ambos, a verdade é que ambos merecem exatamente a destruição mútua.

A paranoia da família real

Isso fica claro quando se observa os fatos, a começar pelo surto público de Eduardo Bolsonaro. Ao ir às redes sociais acusar Nikolas Ferreira de “trabalhar o algoritmo” para dar visibilidade a detratores da família, o deputado federal não expôs uma divergência de princípios, mas sim o pânico de quem percebeu a própria obsolescência.

Eduardo e Carlos sabem que o monopólio da atenção acabou. Eles carregam o sobrenome, a herança genética e a grife, mas quem comanda a tropa de engajamento hoje são os generais que eles mesmos ajudaram a armar. O chilique sobre o algoritmo é apenas o medo palpável de ser ofuscado por um “ex-assessor desconhecido” que se tornou maior que a própria cria do rei.

O que torna o desespero da dinastia ainda mais patético é a sua gritante hipocrisia. A mesma família que cobra lealdade canina e pureza ideológica de um aliado de “direita” não tem o menor pudor em costurar alianças pragmáticas com figuras como Sergio Moro, Ciro Gomes ou André Marinho quando a conveniência eleitoral ou a autopreservação jurídica exigem.

Para a família, aliar-se a adversários históricos e a políticos do centrão é perdoável sob o verniz do “pragmatismo político”. No entanto, ver um correligionário ameaçar o seu protagonismo absoluto é tratado como um crime de lesa-majestade.

Eles colhem exatamente o que plantaram. Durante anos, a ala raiz cultivou a prática de usar, espremer e descartar aliados apenas pela conveniência do curto prazo, admitindo oportunistas óbvios em suas fileiras sempre que isso trazia votos. Ao normalizar o canibalismo político e a traição como método de sobrevivência, o clã assinou a própria sentença: agora, assistem apavorados à rebelião de seus próprios generais.

A covardia dos generais

Do outro lado da moeda, não são menos culpados os “bolsonaristas soft”. Entre tantas outras figuras, nomes como o já citado Nikolas Ferreira, Carol de Toni, Ana Campagnolo, ou o partido Novo (todos apoiados hoje por, pasme, Michelle Bolsonaro) não nasceram independentes e jamais o foram. Pelo contrário, eles construíram seus mandatos e imagens públicas surfando confortavelmente na crista da onda bolsonarista.

Quando era politicamente rentável e o “mito” era presidente da república, ou, no mínimo, um candidato promissor, essa ala pagou com um sorriso no rosto todos os pedágios morais e retóricos exigidos pelo clã. Fecharam os olhos para os absurdos do governo, repetiram as cartilhas e elegeram-se pegando carona na popularidade alheia. Aceitaram ser linha auxiliar em troca de engajamento e cadeiras no Congresso.

Agora, no entanto, a dinâmica mudou. Com o barco furado e o líder isolado, essa mesma direita clama subitamente por novos ares. Eles sentem o cheiro de sangue na água e querem ostentar o selo de “independentes” para colher os louros do futuro.

O grande defeito dessa estratégia é a covardia. Eles exigem o bônus da autonomia, mas recusam-se a pagar o ônus da ruptura. Querem herdar os eleitores do bolsonarismo, mas tremem de medo de fazer oposição explícita e frontal à famiglia. O objetivo é herdar o império roubando a coroa na calada da noite, sem jamais confrontar o imperador.

Por essa frouxidão crônica, apesar da ilusão de sucesso imediato, essa facção merece o destino que se desenha no longo prazo: cair no fogo cruzado, alvejada tanto pela milícia digital que passou anos ajudando a engordar, quanto por novas traições de seus aliados atraídos inicialmente por um projeto que é, ele mesmo, traidor.

O tucano sem penas e o vácuo de poder

Por fim, é no meio desse fogo cruzado de egos e algoritmos, que surge a figura quase tragicômica de Flávio Bolsonaro. Preocupado com a própria candidatura a presidente, o senador gravou vídeos com um tom desesperado e apaziguador, implorando pela “união da direita” e lembrando que “o inimigo está do outro lado”.

Há uma ironia curiosíssima na postura de Flávio. Se na esquerda alguns dizem (embora seja questionável) que Fernando Haddad é “o mais tucano dos petistas”, é nítido que Flávio é o mais tucano dos bolsonaristas. Ele abraça a velha política fisiológica, o tom moderado de fachada e os acordos de bastidor típicos do Centrão. O único problema é que ele tenta mimetizar o PSDB histórico, mas carece por completo da sofisticação técnica e intelectual que em um passado distante caracterizava os caciques peessedebistas. É um tucanato sem penas, sem tese e, agora, sem tropas.

O apelo de Flávio, contudo, é inútil. A guerra dos Diádocos já começou e não possui botão de retrocesso. A implosão do bolsonarismo é irreversível porque suas facções não divergem sobre o Brasil; elas disputam, como abutres, quem ficará com a carcaça do capital político de Jair Bolsonaro.

A boa notícia é que essa destruição mútua deixará um vácuo colossal. E na política, assim como na física, não existe vácuo por muito tempo.

Com a dinastia de sangue isolada em sua própria paranoia e a direita “soft” desmascarada em sua frouxidão, o espaço para uma oposição de direita real e independente finalmente se abre. Esse vazio não será ocupado por herdeiros ou por quem passou a vida pagando pedágio ao clã, mas sim por aqueles que tiverem a coragem de ser independentes desde o primeiro dia. O império personalista vai cair, e assistir à sua ruína é o primeiro passo para a direita real voltar a existir.

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