O fim do mundo sem bordas

Com a recente guinada política observada em diversos países ocidentais, o sonho de morar fora do Brasil parece estar com os seus dias contados.

Logo no início deste ano, já se tornava evidente que a questão migratória nos Estados Unidos se tornaria mais rígida para imigrantes em situação irregular. Ainda assim, a intensidade das deportações superou amplamente minhas expectativas. A princípio, imaginei que as medidas seriam direcionadas apenas a criminosos ou a pessoas diretamente envolvidas em atividades ilegais. No entanto, a realidade mostrou-se bem diferente. Casos de imigrantes que atravessaram a fronteira há décadas, construíram suas vidas no país e nunca regularizaram totalmente sua situação também passaram a ser alvo das novas políticas.

Nos últimos meses, outro fator passou a preocupar ainda mais. Houve mudanças relevantes nas regras para a concessão dos vistos H1B, tradicionalmente associados a profissionais altamente qualificados. A preocupação levantada por meus próprios alunos diante dessas alterações me levou a refletir de forma mais profunda sobre o momento atual do país e sobre o cenário migratório como um todo.

Durante grande parte da última década, os Estados Unidos adotaram uma postura bastante permissiva em relação à entrada de estrangeiros, talvez até em excesso. Quando um país recebe um grande número de pessoas vindas de fora e parte delas acaba causando impactos negativos, ainda que sejam uma minoria, o resultado inevitável é a generalização. A imagem de todos os imigrantes acaba sendo prejudicada, independentemente de suas contribuições individuais.

O que se observa agora nos Estados Unidos é um claro efeito rebote. As políticas migratórias pendularam por tempo demais em uma única direção e, como resposta, retornam com força ainda maior para o extremo oposto. Nesse processo, como costuma acontecer, muitas pessoas que não tiveram responsabilidade alguma pelas falhas do sistema acabam sendo diretamente afetadas.

Há, no entanto, consequências econômicas que não podem ser ignoradas. A redução do número de imigrantes tende a gerar impactos relevantes no consumo interno e na circulação de capital. Já é possível observar o fechamento de algumas financiadoras de veículos, cujo público era majoritariamente composto por imigrantes. Além disso, tanto os Estados Unidos quanto a China são economias fortemente dependentes da inovação, e uma parcela significativa dos vistos H1B é destinada justamente a profissionais que atuam em setores estratégicos ligados à tecnologia, pesquisa e desenvolvimento.

Diante desse cenário, tenho recomendado aos meus alunos que mantenham a calma e, se possível, posterguem planos de imigração no curto prazo, especialmente entre seis meses e dois anos. Este, de fato, não parece ser o momento mais favorável para dar esse passo. Isso não significa, contudo, desistir do projeto.

É importante compreender o contexto mais amplo. No nível micro, a situação atual não é positiva para praticamente nenhum país. A maioria dos governos recentemente eleitos adota discursos e políticas abertamente anti-imigração. Esse movimento não se restringe aos Estados Unidos. Ainda assim, no plano macro, o cenário tende a se inverter ao longo dos próximos anos. As taxas de natalidade estão atingindo mínimos históricos em praticamente todos os países desenvolvidos, o que inevitavelmente criará uma escassez significativa de mão de obra. Quando esse ponto for alcançado, essas mesmas nações não apenas voltarão a abrir suas portas, como também oferecerão incentivos, benefícios e condições mais atrativas para quem deseja imigrar.

No entanto, esse momento ainda não chegou. Trata-se de uma projeção de médio a longo prazo, entre três e dez anos, baseada na observação cotidiana de quem trabalha diretamente com imigrantes e acompanha de perto os fundamentos básicos da economia e da política global.

O sonho de morar fora não acabou, mas ele exige, agora mais do que nunca, estratégia, paciência e leitura correta do tempo histórico.

Compartilhar:

Mais publicações

Antique balance scale with a law book on one side and miniature people figures on the other

Nenhum ativismo deve se sobrepor ao Art. 5º da ConstituiçãoFederal

Representar ou impor? Este artigo analisa o conceito de ‘Trade-Off’ nas políticas públicas e questiona o monopólio do Movimento Negro sobre a identidade parda no Brasil. Com base em dados do Datafolha e bastidores da Lei de Cotas, o texto defende que nenhum ativismo pode ignorar o Artigo $5^{circ}$ da Constituição nem as consequências reais para os grupos que afirma defender.

Não existe notícia boa no Brasil

A inédita rejeição de Jorge Messias ao STF quebrou um tabu de 132 anos no Senado. Mas não se iluda: a queda do homem do “termo de posse” não foi uma vitória da moralidade, e sim mais um acerto de contas do velho e sujo xadrez político de Brasília.

O Meme como Política: O Entretenimento é o Novo Ópio do Povo?Meme como politica

A política migrou para as redes sociais e se transformou em espetáculo. Entre memes, “lacradas” e busca por engajamento, como fica a verdadeira gestão pública e a fiscalização dos nossos representantes? Uma reflexão profunda sobre como o entretenimento se tornou a nova linguagem política e os riscos dessa mudança para as nossas cidades.

Envie-nos uma mensagem